Eu Inteira Sou A Minha Casa, por Iaci Carneiro

Lembro-me da primeira vez em que me deparei com esse título, em 2018, na exposição da Iaci. Naquele momento, ela abordava a experiência da gravidez e de dar a luz à uma menina em meio a um processo de mudanças e transformações pessoais. Essas palavras, porém, continuaram reverberando para além da exposição: percebi que elas transbordam em toda a produção dessa artista.

A espontaneidade presente em seus desenhos é do tipo que somente se manifesta quando uma pessoa se sente muito à vontade, como quem tem o final de semana inteiro para estar consigo mesmo. Essa fluidez respalda a estética lúdica de seu trabalho, permitindo que ele aborde diferentes temas contemporâneos, como a maternidade ou situações cotidianas.

Mesmo quando o desenho apresenta circunstâncias dolorosas da vida adulta, o humor único da artista, carregado por um senso de tragicomédia, torna a experiência de contemplar a obra leve e divertida.

Ainda que seja poético, o trabalho de Iaci é direto e preciso em sua comunicação. Não há possibilidade para fugas ou interpretações romantizadas, uma vez que suas obras se originam de experiências verdadeiras, frutos de uma luta diária de construção e desconstrução.

O resultado são desenhos, ilustrações e pinturas que se permitem existir nos mais variados suportes - até aqui a espontaneidade se faz presente -  que exploram o limiar entre o que é carnal e onírico, sem abandonar um forte senso de realidade e aterramento.

Observando toda a maleabilidade da produção dessa artista, reflito: só quem consegue ser sua própria casa é capaz de brincar com as diferentes possibilidades da vida sem perder a consciência de si próprio ou do lugar que ocupa no mundo.

Acesse o trabalho de Iaci pelo seu Instagram.

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