Ângelo, de Mariana Machado (2020)

Ângelo, por Mariana Machado (2020)

Realizado pela cineasta Mariana Machado, o filme "Ângelo" celebra sua existência naturalmente curiosa e apaixonada.

Para entender o tamanho de um homem, é preciso olhar para a imensidão de seus sonhos. Os de Ângelo Machado são medidos pela fome de desbravar os campos do saber e os córregos que margeiam a fantasia e a criatividade humana. 
O filme, que carrega sua aura como título, foi dirigido, fotografado e montado por sua neta e alma irmã, Mariana Machado. Inevitável mencionar que essa obra enaltece o profundo amor e admiração existente entre os dois, uma vez que Ângelo foi multi: multi-cientista, multi-ecologista, multi-homem, de forma que apenas uma relação genuína seria capaz de documentar as facetas dessa mentalidade incandescente com honestidade e pureza.

O contato íntimo do espírito com o corpo gera um constante atrito - talvez isso seja o principal motor do envelhecimento humano - mas, como dizia Clube da Esquina, "Os sonhos não envelhecem" e Ângelo, mesmo em idade avançada, não se permitiu a rabugice. Ao longo do filme, somos convidados a poeticamente mergulhar em sua vida e obra. Suas considerações são alegres e reflexivas e, entre risos e lágrimas, vamos nos familiarizando com essa personalidade de vários amores e interesses. O diretor Andrei Tarkovski sensivelmente registrou em seu diário, no ano de 1973, que "o símbolo do cinema é um símbolo do estado da natureza e da realidade em que o principal não está mais no detalhe, mas no que está oculto!" O há de oculto em Ângelo é a linguagem do amor, sutil fio tecedor da narrativa do filme e também das ações em sua vida.

Em uma passagem, Ângelo afirma ter sonhado com uma libélula e desejar imensamente encontrá-la na realidade. Penso que essa libélula fantástica é como o sentido da vida: não é encontrada na materialidade, mas sim na busca e no desejo, atitudes estas que não faltaram. Ângelo explorou as diferentes potencialidades de sua criatividade apaixonadamente para se aproximar do mundo e traduzi-lo às mais diferentes formas humanas de raciocinar.

Segundo a máxima de Lavoisier, "Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma". Podemos entender essa transferência de energia também de um modo que supera a matéria, já que as ações e vivências cultivadas por Ângelo agora transbordam na produção cinematográfica de sua neta e na vida de todas as pessoas que foram tocadas por seu amor pela ciência, pela arte e pela curiosidade humana. Sua vida foi uma grande ode à capacidade humana de descobrir e compreender, e, "Ângelo", uma celebração de sua existência múltipla e apaixonada.

Acesse o trabalho de Mariana Machado em seu site ou seu Instagram.

©2020 por Diacrítico.