Tarda, um percurso de encontro

Em 2017, cinco artistas se reuniram em Belo Horizonte para iniciar um projeto musical com características ímpares. Composta por Julia Baumfeld, Paola Rodrigues, Randolpho Lamonier, Sara Não Tem Nome e Victor Galvão, Tarda se constitui como uma banda que propõe experiências visuais que buscam construir a ambiência necessária para o som ecoar. Para isso, a variada experiência que cada integrante possui em diferentes linguagens artísticas é um enorme diferencial.

As sensibilidades individuais se somam, originando a entidade única que evoca a personalidade da banda.

Essa presença se manifesta em todos os produtos do grupo, que vão desde as músicas até a estética que permeia as composições visuais que a banda disponibiliza sobre ela mesma e suas reflexões.

Todos se envolvem nessa constante elaboração, o que contribui para que o caráter do todo seja sempre genuíno.

Cada integrante está confortável em explorar a vertente que mais domina, mas nenhum deles se limita a isso: todos intercambiam funções e espaços na banda, ocupando aquilo que parece natural para o momento.

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Nos primeiros momentos da concepção do projeto, os ensaios ocorriam frequentemente. Porém, eles não se estabeleciam apenas como ocasiões de aprimoração dos sons, mas também como espaços temporais em que ocorriam uma dissecação sonora para analisar os caminhos que a banda poderia trilhar musicalmente. Naquele momento, as experimentações no campo do noise foram embasadoras dos processos iniciais do grupo, mas logo a sonoridade foi se tornando cada vez mais uma expressão autêntica da entidade Tarda. O som atual habita um lugar localizado entre o dream pop e o post rock, com requintes de shoegaze.

Em Veluda (2018), primeiro videoclipe lançado pela banda, os integrantes se revelam, mas é notória a presença da identidade do grupo como um todo. Sua essência é apresentada com explosão e força em um arranjo melódico e harmonioso, acompanhada por imagens que resultam de uma gravação realizada em VHS. Veluda é o primeiro olhar da banda para o mundo, consolidando um posicionamento singular e definitivo perante a diversos aspectos musicais e artísticos.

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Still de Veluda.

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O isolamento social e o consequente distanciamento dos integrantes da banda foi sensivelmente explorado em Breath (2020), single que integra o álbum Futuro. Gentil e contemplativo, a composição se propõe a ser o espaço de respiro que foi necessário àqueles tempos. Buraco de Afundar (2020), também pertencente ao álbum Futuro, foi igualmente lançada neste mesmo contexto, embora sua letra marcante explore os sentimentos mais densos e solitários que emergiram naquele momento.

Capa do single Breath

Ainda que os singles sejam potentes, nada se compara à complexidade e nuances trazidas pelo álbum Futuro (2020). Nele, os aspectos que delicadamente despontavam nas músicas são intensamente explorados nas onze composições. Futuro traduz as inúmeras angústias internalizadas de uma circunstância política e social única, repleta de contratempos e obstáculos a níveis individuais e coletivos. No equilíbrio perfeito entre poesia e política e entre generalizações e subjetividade, o álbum propõe uma experiência tensa, cheia de altos e baixos, assim como o ano de 2020. 

Sara Não Tem Nome e Paola Rodrigues compartilham os vocais, alternando entre o angelical e o agressivo, transitando nos terrenos do melódico e do spoken word. As diferentes faces da banda se manifestam em composições cortantes (Wishes e Paranoid Quarto) e contemplativas (Buraco de Afundar e Futuro) sem nunca escorregar na ingenuidade. Afinal, a vivência do grupo os permite atravessar temas labirínticos sem se ensopar na inocência.

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Além de idealizar o álbum enquanto produto musical e artístico, a banda também se encarregou da maioria dos aspectos técnicos necessários à sua gênese. Futuro foi majoritariamente produzido, gravado e mixado pelos integrantes no estúdio-quarto intergalático, espaço de intimidade e criação do grupo.

Assim como o CD é fruto de um processo delicado e autêntico, a imagem que o acompanha também é resultado de um pensamento meticuloso. A capa do álbum, concebida por Randolpho Lamonier, transpõe de maneira sublime a personalidade da banda. Munidos por suas sensibilidades, os artistas embarcam rumo à exploração de um futuro viável em uma visão fantasiosa e bela.

Arte do álbum Futuro, concebida por Randolpho Lamonier.

Em um cenário que beira ao desalento, Tarda oferece consolo e nos convida a vislumbrar a possibilidade de um amanhã em um sopro agudo de inspiração e esperança. Futuro é o único arranjo sonoro possível para os tempos de anormalidade enfrentados atualmente, capaz de embalar os melhores devaneios, sejam eles brilhantes ou opacos.

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Ouça Futuro pelo Spotify, Youtube ou BandCamp.

Acompanhe o trabalho da banda em seu site ou Instagram.